{"id":12779,"date":"2021-02-25T16:34:32","date_gmt":"2021-02-25T19:34:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aeamesp.org.br\/?p=12779"},"modified":"2021-02-25T16:34:32","modified_gmt":"2021-02-25T19:34:32","slug":"parados-na-contramao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aeamesp.org.br\/site2025\/parados-na-contramao\/","title":{"rendered":"PARADOS NA CONTRAM\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p><em>Cidades brasileiras rejeitam um debate urgente: cobrar de usu\u00e1rios de carros custo da infraestrutura p\u00fablica e destinar recursos ao transporte coletivo<\/em><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-12780 size-large\" src=\"http:\/\/www.aeamesp.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/transito_220221_interan-1024x640.jpg\" alt=\"\" width=\"810\" height=\"506\" \/><\/p>\n<p><span class=\"capitalize\"><strong>\u00c9<\/strong>\u00a0<\/span>poss\u00edvel que alguma vez, numa roda de amigos em um bar no final de semana \u2013 quando pod\u00edamos nos reunir numa roda de amigos no final de semana, prazer que a responsabilidade impedir\u00e1 at\u00e9 que a vacina\u00e7\u00e3o se complete \u2013, voc\u00ea tenha ouvido algo assim: \u201cEu n\u00e3o uso transporte p\u00fablico no Brasil. \u00c9 uma droga. Minha empregada me conta que passa mais de duas horas entre trem e \u00f4nibus para chegar ao trabalho. Nem pensar.\u201d E depois de muitos chopes, na hora de ir embora, l\u00e1 est\u00e1 o amigo \u201ccr\u00edtico\u201d entrando em seu autom\u00f3vel, que pesa entre 1 e 2 toneladas \u2013 e, a 40 km\/h, considerado o espa\u00e7o necess\u00e1rio para frear e acelerar, poder\u00e1 ocupar at\u00e9 115 metros c\u00fabicos das ruas e avenidas por onde passar,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2011\/06\/27\/science\/earth\/27traffic.html\">segundo estudo realizado na Su\u00ed\u00e7a<\/a>.<\/p>\n<p>A constata\u00e7\u00e3o de que o transporte p\u00fablico no pa\u00eds \u00e9 ruim, feita por algu\u00e9m que n\u00e3o o utiliza, costuma se basear em preconceito. Discurso semelhante se ouve sobre o Sistema \u00danico de Sa\u00fade. Nada presta para quem n\u00e3o usa \u2013 enquanto representa uma salva\u00e7\u00e3o para os usu\u00e1rios. O SUS n\u00e3o \u00e9 uma maravilha, claro, mas resolve boa parte dos problemas de sa\u00fade p\u00fablica no Brasil.<\/p>\n<p>Os principais problemas da mobilidade urbana \u2013 conceito que abrange, al\u00e9m do transporte p\u00fablico, a caminhada, o uso da bicicleta, o ve\u00edculo particular, os sistemas baseados em plataformas e a distribui\u00e7\u00e3o de bens e produtos \u2013 t\u00eam origem, curiosamente, fora da pr\u00f3pria mobilidade urbana. Sempre digo que uma cidade com problemas de mobilidade \u00e9 como um doente com febre. A febre n\u00e3o \u00e9 a doen\u00e7a, \u00e9 o corpo tentando alarmar sobre a exist\u00eancia de outro mal. No caso das cidades, aquelas que t\u00eam linhas de \u00f4nibus e metr\u00f4s lotadas, congestionamentos e altos \u00edndices de acidentes de tr\u00e2nsito tentam desesperadamente dizer: \u201cFomos mal planejadas. Nosso crescimento foi irracional. As pessoas moram cada vez mais longe e as oportunidades de trabalho est\u00e3o cada vez mais concentradas\u2026\u201d<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o para esses problemas estruturais demanda n\u00e3o apenas vontade pol\u00edtica e engajamento dos atores urbanos como tamb\u00e9m um longo, longu\u00edssimo prazo. Enquanto isso, os sistemas de mobilidade urbana precisam receber investimentos e prioridades para viabilizar e democratizar o acesso nas cidades. Sem ele, a urbe perde competitividade e diversidade, correndo o risco de diminuir sua riqueza.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\"><strong>O<\/strong>\u00a0<\/span>investimento em transporte p\u00fablico \u00e9 daquelas unanimidades em debates. Ningu\u00e9m, de fato, anuncia hoje planos de governo dizendo que ir\u00e1 investir para que as pessoas possam usar mais carros; que os autom\u00f3veis ser\u00e3o beneficiados com novas avenidas e viadutos; que se pretende retirar espa\u00e7os de pedestres, de ciclistas (quase inexistentes) e do transporte p\u00fablico para oferecer aos ve\u00edculos motorizados de quatro ou duas rodas. Tenho lido in\u00fameros projetos governamentais nos \u00faltimos anos e nunca encontrei nada parecido.<\/p>\n<p>Entretanto, durante a execu\u00e7\u00e3o de tais planos, vemos muito pouco apetite para realmente priorizar o transporte p\u00fablico. N\u00e3o se investe o m\u00ednimo necess\u00e1rio, n\u00e3o se trabalha para equacionar o financiamento da opera\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os. Evita-se tomar espa\u00e7o dos carros para a implanta\u00e7\u00e3o de faixas de \u00f4nibus, que melhoram significativamente a efici\u00eancia desse servi\u00e7o a um custo incrivelmente baixo. N\u00e3o se moderniza a contrata\u00e7\u00e3o de operadores privados e n\u00e3o se investe em tecnologia. Em regi\u00f5es metropolitanas quase n\u00e3o h\u00e1 iniciativas para a implanta\u00e7\u00e3o de gest\u00e3o conjunta, apesar da farta literatura e experi\u00eancias que mostram os incont\u00e1veis ganhos do uso de autoridades metropolitanas. Em resumo: sabemos de cor e salteado o que deve ser feito, por\u00e9m quase n\u00e3o fazemos. A pergunta na qual cada vez mais insisto \u00e9: por que o debate sobre transporte coletivo n\u00e3o anda \u2013 com o perd\u00e3o do trocadilho \u2013 nas cidades brasileiras?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o neste artigo para esgotarmos as possibilidades de por que n\u00e3o fazemos o \u00f3bvio, o que \u00e9 sabido, ressabido e experimentado. Todavia, podem ser levantadas algumas das principais hip\u00f3teses.<\/p>\n<p><strong><span class=\"capitalize\">P<\/span><\/strong>enso que uma das raz\u00f5es que nos fazem permanecer numa esp\u00e9cie de in\u00e9rcia \u00e9 a falta de consci\u00eancia da sociedade do conceito de externalidades nos sistemas de mobilidade. Externalidade \u00e9 um efeito de uma determinada atividade que atinge outros, n\u00e3o afetando a atividade que a gera. Ela pode ser negativa, quando prejudica terceiros, ou positiva, se os beneficia.<\/p>\n<p>O uso individual do autom\u00f3vel \u00e9 um forte gerador de externalidades negativas. Um carro pesa entre 900 kg e duas toneladas. Na m\u00e9dia, nas cidades brasileiras, um autom\u00f3vel transporta 1,1 passageiro. Ou seja, para mover algo ao redor de 80 kg, usa-se uma m\u00e1quina que pesa at\u00e9 24 vezes mais. O consumo de energia para mover essa pessoa, medido em megajoules,\u00a01\u00a0\u00e9 entre 2,3 e 2,6 Mj\/pass-km,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.antp.org.br\/fretamento\/vantagens-para-a-sociedade.html#:~:text=A%20compara%C3%A7%C3%A3o%20geral%20das%20efici%C3%AAncias,km%20(Goldemberg%2C%201998).\">mostram dados da ANTP (Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Transportes P\u00fablicos)<\/a>. Se ela decidisse ir de \u00f4nibus, consumiria entre 0,6 e 0,8 Mj\/pass-km. Esse excessivo consumo de energia faz dos carros os grandes vil\u00f5es da polui\u00e7\u00e3o urbana. E, para piorar, n\u00e3o se pode esquecer que autom\u00f3veis ainda ferem e matam milhares de pessoas todos os dias.<\/p>\n<p>Um\u00a0<a href=\"https:\/\/thediscourse.ca\/scarborough\/full-cost-commute\">estudo publicado pela Discourse Media<\/a>, realizado em cidades canadenses, mostra que se o deslocamento a p\u00e9 custa para um indiv\u00edduo que est\u00e1 caminhando a quantia de 1 d\u00f3lar, para a sociedade essa viagem custar\u00e1 1 centavo de d\u00f3lar. Se a decis\u00e3o for se locomover por bicicleta, a propor\u00e7\u00e3o ser\u00e1 de 1 d\u00f3lar de despesa para o ciclista e 8 centavos de d\u00f3lar para a coletividade. Caso nosso viajante decida ir de \u00f4nibus e essa viagem lhe custe o mesmo 1 d\u00f3lar, a sociedade pagar\u00e1 1 d\u00f3lar e 50 centavos. Achou caro? Ent\u00e3o veja o custo da viagem em carro individual. Se o nosso motorista desembolsa 1 d\u00f3lar para uma viagem de autom\u00f3vel, toda a sociedade arcar\u00e1 com 9 d\u00f3lares e 20 centavos.<\/p>\n<p>Surpreso? Pois \u00e9, n\u00f3s n\u00e3o fazemos esse debate. A sociedade n\u00e3o tem no\u00e7\u00e3o do custo que suporta para que as pessoas se movam por meio de carros. Dou como exemplo a cidade de S\u00e3o Paulo. Se voc\u00ea entrar no site da prefeitura, vai identificar facilmente os valores pagos a t\u00edtulo de subs\u00eddio ao transporte p\u00fablico. Est\u00e1 l\u00e1, em uma rubrica or\u00e7ament\u00e1ria espec\u00edfica. No entanto, tente levantar o gasto do executivo municipal com o transporte individual motorizado. Voc\u00ea n\u00e3o vai encontrar. Nem em S\u00e3o Paulo e, provavelmente, em nenhuma outra cidade do Brasil.<\/p>\n<p>E, claro, n\u00e3o \u00e9 que a despesa n\u00e3o exista. Existe e \u00e9 gigantesca: \u00e9 parte significativa dos gastos com todo o pavimento de 17 mil km de ruas e avenidas da capital paulista, placas de tr\u00e2nsito, sem\u00e1foros e engenharia. Tamb\u00e9m se reflete no custo financeiro e humano com as mortes e os feridos \u2013 60% das vagas de UTI no pa\u00eds s\u00e3o ocupadas por v\u00edtimas de acidentes de tr\u00e2nsito \u2013, a polui\u00e7\u00e3o, os congestionamentos, o uso do espa\u00e7o p\u00fablico e outros custos tang\u00edveis e intang\u00edveis. Quando uma despesa n\u00e3o \u00e9 conhecida, temos a sensa\u00e7\u00e3o de que ela n\u00e3o existe. Se n\u00e3o incomoda a sociedade, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00f5es para discuti-la. Se n\u00e3o discutimos, seguimos, como sociedade, pagando por ela, sem question\u00e1-la. Em compensa\u00e7\u00e3o, debatemos intensamente se o subs\u00eddio ao transporte p\u00fablico em S\u00e3o Paulo \u00e9 muito, se \u00e9 pouco, se \u00e9 bem gasto, se pode ser melhor aplicado etc.<\/p>\n<p><strong><span class=\"capitalize\">M<\/span><\/strong>uitas cidades ao redor do mundo est\u00e3o enfrentando esse debate. \u00c9 justo que toda a sociedade subsidie o uso do ve\u00edculo particular, que gera tantas externalidades negativas? \u00c9 correto que o uso privado das vias p\u00fablicas pelo autom\u00f3vel continue sendo suportado por todos os pagadores de impostos, inclusive por aqueles que n\u00e3o t\u00eam carro? \u00c9 justo que o motorista da SUV use o asfalto, os sem\u00e1foros e estacione sem nada pagar enquanto o passageiro de \u00f4nibus, para vir de Guaianases para o Centro de S\u00e3o Paulo, tenha que desembolsar 4,40 reais? Londres, Singapura e Nova York j\u00e1 estabeleceram cobran\u00e7as dos usu\u00e1rios de ve\u00edculos pelo uso da infraestrutura p\u00fablica e est\u00e3o empregando esses recursos para ampliar e melhorar o transporte p\u00fablico.<\/p>\n<p>Essa discuss\u00e3o j\u00e1 foi superada nas rodovias. Nas principais estradas, o custo de sua manuten\u00e7\u00e3o \u00e9 suportado exclusivamente pelos seus usu\u00e1rios. N\u00e3o tem mais o menor eco na sociedade o discurso de elimina\u00e7\u00e3o dos ped\u00e1gios. Todos j\u00e1 entenderam que esse modelo \u00e9 muito mais justo. Recursos que eram drenados do or\u00e7amento governamental para a manuten\u00e7\u00e3o de estradas hoje podem ser alocados para outros servi\u00e7os p\u00fablicos. Algu\u00e9m poder\u00e1 dizer: mas eu j\u00e1 pago o IPVA. Lembrando que pagamento de imposto n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com uso de infraestrutura p\u00fablica. Voc\u00ea tamb\u00e9m paga IPTU e n\u00e3o tem \u00e1gua, luz, g\u00e1s ou internet de gra\u00e7a por conta disso.<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o fazer essa discuss\u00e3o nas cidades? Por que n\u00e3o passar os custos de manuten\u00e7\u00e3o das vias de autom\u00f3veis para os seus usu\u00e1rios e transferir esses recursos para investimentos no transporte p\u00fablico e\/ou para redu\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o da tarifa, que beneficiaria muito mais gente, amplificaria e democratizaria o acesso, melhoraria o meio ambiente e diminuiria a trag\u00e9dia de mortos e feridos no tr\u00e2nsito?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cidades brasileiras rejeitam um debate urgente: cobrar de usu\u00e1rios de&hellip;<\/p>\n<p> <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/aeamesp.org.br\/site2025\/parados-na-contramao\/\">Leia mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12780,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"pagelayer_contact_templates":[],"_pagelayer_content":"","_kadence_starter_templates_imported_post":false,"footnotes":""},"categories":[69],"tags":[],"class_list":{"0":"post-12779","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-noticias"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aeamesp.org.br\/site2025\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12779","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/aeamesp.org.br\/site2025\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aeamesp.org.br\/site2025\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aeamesp.org.br\/site2025\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aeamesp.org.br\/site2025\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12779"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/aeamesp.org.br\/site2025\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12779\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aeamesp.org.br\/site2025\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aeamesp.org.br\/site2025\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12779"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aeamesp.org.br\/site2025\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12779"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aeamesp.org.br\/site2025\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12779"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}